POESIAS

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COLETÂNEA - CARTAS DE ISOLAMENTO

Há vários meses, venho morando no seu último email, no último texto que você me enviou, justificando aquela pressa por me entender e decifrar, quando nem eu mesma sabia quem eu era, do que eu fugia ou o porquê dessa necessidade de escrever cartas e não deixá-las tocar suas mãos.
O que sei é que agora os dias estão mais frios e as ruas, vazias.
O peito também pulsa mais forte e as possibilidades, todas elas, me assustam.
Quando falo de coragem, não a tenho. Também não tive tempo pra grandes amores, sempre estive entretida com os pequenos delírios.
E, sobre amor, o que sei está na água da chuva que escorre nas calçadas, sob as luzes vermelhas dos postes. Está nas cinzas do cigarro apagado ao triscar o chão. Está nos excessos e ausências que fazem sucumbir.
E não é o bastante, acredite.
Mas o que fazer quando não se tem um formato? Nem um roteiro de filmes ou uma fórmula química, meu bem?
Por isso, escolhi amar as insignificâncias, essas bobagens que a gente habita por dentro.
E quando, ofegante, te falei sobre sentir tanta emoção a ponto de ter náuseas diante do que é belo, foi ali, quando, talvez, eu tenha amado.
Esses amores tolos não me envergonham. E, te digo, nunca estive pronta pra grandes romances, pois nem a mim eu sabia amar ainda.
Então, por hora, sobrevivi dos pequenos segredos sussurrados em meus ouvidos, das músicas, das entrelinhas dos livros e dos pequenos acontecimentos do cotidiano.
Agora, que te escrevo, a cidade está gritando.
E quero confessar que, nesses dias, todos os outros têm aprendido algo ou feito umas várias coisas.
Alguns dançam, outros cantam, alguns estudam. Há também os que tomam sol e os que saem às ruas em nome de nossas vidas.
E eu, bem... eu tenho aprendido inúmeras maneiras de sentir medo, de gritar, mas, principalmente, de ficar quieta. Eu tenho aprendido que existem diversas formas de mapear a minha casa, de um canto ao outro, medindo o quanto de dúvida cabe em cada palmo.

Mas, meu amigo,
espero que quando deixarmos passar esses tempos, possamos sentar pra tomar um café
e falar sobre os futuros acontecimentos, seus grandes amores, e meus pequenos delírios,
já que nem todo mundo tem paciência pra essa minha falação.

Ias Rodriguez Porto Autor Ias Rodriguez Porto MEU PERFIL
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