Poesia

A Anatomia do Mistério

Eu coleciono as pequenas epifanias que nascem
cada vez que o meu olhar colide com o teu.
Às vezes o sentido é uma transparência;
em outras, preciso do labor da alma
para traduzir o que o teu silêncio enuncia.

Ensaiar a pretensão de decifrar cada engrenagem da tua cabeça foi,
por muito tempo, a minha bússola,
mas agora, no limiar desse amor,
percebo que o que me arrebata é justamente o que eu não sei.
Eu me rendo ao imprevisto,
ao milagre das surpresas que você traz sem nem notar que as carrega.

Essa serenidade me habita como um altar.
Ver o mundo pelas tuas inspirações me devolve a visceralidade da vida,
porque, por muito tempo, eu conjurei para mim mesmo
Aquelas palavras em forma de canção que outrora ouvi:
"Eu quero a sorte de um amor tranquilo."

E o meu cenário sempre foi esse:
Um céu transbordando constelações,
os sons da noite servindo de trilha
e uma bebida em nossos copos que combinem com o nosso compasso.
O universo ali, mudo,
sendo a única testemunha de que paramos no tempo.

Então, me alegro com o fato de não saber o que você pensa.
Fico bobo quando a surpresa vem
em forma de um "amor" dito no meio da tarde,
quando você ajusta o meu conforto
ou planeja algo que sabe que vai ressoar entre nós.
É o privilégio de ser convidado a entrar no seu mundo.

Eu, que sempre tive o hábito de ler as pessoas como se fossem livros abertos,
me perco completamente quando te vejo.
Acho que é porque, perto de você,
o meu raciocínio falha — e que bom que falha.
Você me faz feliz sem esforço algum,
e eu finalmente abdiquei da necessidade de racionalizar o porquê.

Rony Welry Rony Welry Autor
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