Anuncio a minha chegada em passos mansos,
com o peito já saturado pela pressa de te ver.
O tempo dita que serão poucos dias, eu sei,
mas cada novo amanhecer ao teu lado opera um milagre:
eu me redescubro mais rendido, mais teu.
Contigo, há a insígnia da liberdade;
não há disfarces, não há versões minhas que precisem de exílio.
Cada riso que me escapa é apenas o eco, a extensão exata do teu abraço.
Eu me coloco atrás da porta, o pulso em sobressalto,
esperando o teu retorno da exaustão do mundo lá fora.
Quando a fechadura gira e te trago para o meu espaço,
o meu sorriso se torna irrevogável.
No calor do teu hálito, no sabor do teu beijo,
toda a minha matéria se aquece.
A tua companhia não é apenas um conforto;
é um bálsamo que suspende a gravidade dos dias.
Mas a presença é um pêndulo,
e todo encontro guarda a gênese da sua própria ausência.
Mesmo a despedida mais breve,
essa que sabemos temporária,
tem o poder de inundar o peito com o peso do vazio.
Ao cruzar o limiar da tua porta, não saio inteiro.
Deixo uma fração da minha existência sob o teu teto,
uma parte de mim que se recusa a partir.
Vou-me embora com a certeza imperturbável de que
essa metade esquecida está em solo sagrado,
sob a tua custódia, resguardada até o meu próximo regresso.
Afinal, nossa história é esse ofício bonito:
um enredo tecido entre o calor do abraço e o ensaio das ausências.