Poesia

A dança das almas - parte II

A dança das almas
2ª parte: O desejo, o espírito, a alma e o inexistente.

Somos cruéis. Na maior parte do tempo somos cruéis. Todos os dias crucificamos nossas almas com as nossas vãs angústias. As almas não precisam de dor, as almas só precisam dançar e mais nada. A dança das almas, ainda não falei, é o processo de apaixonamento animático repousado nas essências hedonísticas do desejo. Desculpem-me vamos conversar agora sobre o desejo. Primeiramente gostaria de dizer que as almas só se deixam penetrar pela poesia, não há outra forma. O desejo é o passeio da alma pelo encantamento, é a busca saudosa daquele não se sabe o quê – quem disse que o desejo é buscar aquilo que se quer? Buscar o que se quer é querer, o desejo é uma viagem poética empreendida pela alma sempre a abraçar o inexistente. Na dança das almas o inexistente não é o que não existe, mas aquilo que alma precisa encontrar.
Existem pessoas que querem muitas coisas – existem coisas que querem muitas pessoas, é até engraçado. Preciso lhes contar um segredo, vou falar baixinho: “coisas não fazem a alma dançar”. O mundo animático é feito de essências e essências não são coisas. O único caminho que nos leva às essências é o desejo. Todas as almas são entidades perpetuantes de uma transmutação na qual passeiam pelo encantamento. Há pouco tempo percebi a dança das almas, compreendi a importância da saudade, o mistério do encantamento e a sutileza do destino – acho que minha alma quis que assim o fosse, e numa de suas caminhadas decidiu mostrar-me aquilo que precisava encontrar. Não podemos esquecer que o encantamento é tudo aquilo que aproxima meu corpo do abraço animático da saudade, e que a saudade é quando a alma vai passear onde ela gostaria de estar.
Quando um poeta faz um poema – quando o poema se deixa perceber pelo poeta – ele está em pleno processo de encantamento, sua alma dança a dança eudaimônica do desejo, guia seu espírito – o espírito é diferente da alma; a alma é a autonomia do inconsciente e o espírito é a vontade, que por sua vez não é o querer e nem o desejo; a vontade é uma dança de anunciação que anuncia para a alma que é chegada a hora de partir – pelas veredas da alma. Não existe um tempo certo para que uma alma comece a dançar. Lembram do homem espectro de homem que tinha permanecido por muito tempo na escuridão das incertezas e tinha acorrentado sua alma nas correntes do medo? Ele voltou a sonhar. Na verdade almas não se prendem. As almas são entidades mágicas.
A essência da alma é o inexistente – cuidado, na dança das almas o inexistente não é o que não existe, mas aquilo que a alma precisa encontrar. Vou repetir: a essência da alma é aquilo que nos confere paz e completude, aquilo que se convencionou chamar de “felicidade”. Depois falaremos de felicidade. Sabemos que desejamos alguma coisa quando temos o peito invadido por um vazio sem igual, quando sentimos uma saudade sonhosa. Desejar é fortalecer a alma, é sonhar-se no caminho apaixonante das essências hedonísticas. No desejo as almas se procuram, é um estado frenético de busca, é sentir com o vento o abraço sonhado de quem se ama, é entorpecer-se de saudade; o desejo é sentir-se saudoso mesmo cercado de incertezas – certa vez conheci um homem que havia estado por muito tempo perdido nos caminhos de sua alma, era uma criatura assustadora, não se assemelhava a nada que fosse humana, sua alma estava sentada na eterna imensidão das incertezas – o desejo é precisar de outra alma, outra alma que busque muito estar com a nossa, pois é o desejo quem diz a saudade onde mora o encantamento, e quem mostra ao coração o caminho da transmutação dos versos.

Gabriel Ferreira Gabriel Ferreira Autor
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